Wednesday, December 19, 2007

Sintonia


Sintonia...
Olhares sobrepostos pelo partilhar do impensável, pela pureza de um querer algo, substancial, concretizado na capacidade de um sorriso, na vitralidade de um olhar, reflexo da esperança, consciência da musicalidade de uma sintonia...
Invadido sem permissão, enfraquecido por cair na armadilha do destino, no traiçoeiro caminho do desconhecido. Posso voltar atrás agora, daqui a pouco, amanhã... mas não quero, quero correr...
Nas minhas noites apareceu uma nova estrela, brilhante, subtil, intensa...
Na aurora das minhas manhãs fui arrebatado pela beleza de tons estranhamente desconhecidos, prateados de acreditar, acobreados de pensar, dourados de sentir...
Nas minhas horas vislumbrei o tempo, que demora a passar, que se recusa a aproximar essa sintonia, que atrasa o apagar da luminosidade do dia.
Caminho firme no precipício da possibilidade, atravesso o pântano da conquista, mergulho em mares do incerto, voo por céus pela mágoa amaldiçoados...
Cair é uma possibilidade, afogar-me um destino, ser fulminado pela crueldade da mágoa uma incerteza...
Terei consciência do caminho ao qual me ofereço?
Não sei... ou quero acreditar que não.
Se posso sorrir, sorrirei, entregar-me-ei a esta sintonia que me abraça, me conforta, me preenche.
Sintonia... angélica presença desse perigoso e demais gracioso sentir.

Friday, December 14, 2007

Simplesmente Eu


Invadido pelo cansaço do pensar, entorpecido por estranhas incertezas, prisioneiro de um corpo dorido pela força da escolha, magoado pela brutalidade da decisão... paro, preciso de descansar...
Sento-me na pedra da reflexão e contemplo o horizonte das sensações.
No reluzente espectáculo de um pôr do sol perco-me, entrego-me à fraqueza do sonho, à fugacidade de um querer que já não reconheço, à contemplação de um percurso apagado pela chuva da contradição.
No vento que me gela o rosto, petrificam sensações que tanto me aqueceram outrora, que me iluminaram qual estrela guia do meu caminho.
Estrela sem rumo.
É neste luar das minhas noites que a vislumbro, que me acompanha, me ensina, me lembra que a perfeição é pedra filosofal, mito de histórias urbanas em que é necessário acreditar, nesse alcançar não por mim, não por alguém...
Não sou perfeito, nem o pretendo, sou apenas um eu, um pouco perdido, um pouco sem rumo.
Na multidão de existências ainda me encontro, na multiplicidade de seres sociais ainda revejo o meu eu, forjado pelos momentos que me construíram, esculpido por mãos que me ampararam, desenhado por instantes que me foram delineando...
Eu sou um alguém, perdido no tempo, achado nas minhas horas.
Por isso sorrio, nem a chuva que agora me escorre no espírito me perturba.
Sinto-me fortalecido, revigorado pelo saber que o meu eu será sempre meu. Que o meu conteúdo permanecerá imutável, será companhia da minha solidão, será reconforto na tristeza, será aplauso no triunfo...
Este sou eu, neste corpo encerro a colecção de artes intemporais, valiosos temperamentos de mim.
Desta pedra me levanto e sigo o meu caminho.
Não receio o incerto, não renego o que me espera. Sei que não serei ingrato com este eu que não me abandona. Serás para sempre irmão, anjo e amigo, serás essa estrela para sempre no meu luar.
Sou como sou, não sei ser de outra maneira. Incertezas, impulsos, dúvidas, receios encontrarei sempre nesta viagem...
Espontaneidade, sinceridade, amizade e fidelidade serão sempre este eu, pronto para um combate sem vitórias, sem derrotas apenas artesão do ser, da alma e do espírito.
Como já o disse sou apenas "Alguém que está de passagem, a todo o momento, em cada lugar... Alguém que procura o lado bom de todas as coisas, que procura, a todo o instante, outros caminhos, outras possibilidades...Alguém como qualquer um."

Thursday, November 29, 2007

Palavras


Palavras...
Vozes de ser, ecos de personalidade, arma e escudo da mente, sussurro de um eu tantas vezes oculto, de um corpo preservado na segurança de um não arriscar, amarras da incerteza, testemunhas dos meus pensamentos...
Com palavras me perco, me entrego à negação do significado, da sua essência...
Pelas palavras me encontro, me descubro, me edifico...
Nas palavras me reconforto, me completo, me permito recomeçar...
Nesta teia de letras procuro uma expressão, uma possibilidade de me dar a conhecer, aos olhos do mundo, às sensações do tempo, beleza de um sol reflectido nas águas de um momento...
Palavras...
Por palavras encontrei um anjo, um ser de asas privado, verdadeiro no pensar, envolvente no sentir...
Será um guardião? Poderei contemplar no espelho do meu significado o seu reflexo?
Interrogações forjadas por um desejo de conhecer o amanhã, pela vontade do querer saber o que me aguarda no meu caminho, nesta história que tanto vagueia no labirinto da minha existência...
Não tenho ilusões, não quero viver num sonho acordado nem doarei ao amanhã a intensidade do viver o meu momento...
Por vezes não encontro palavras para me exprimir porque tenho medo...
Medo de ser injusto com a beleza do instante, medo de diminuir a intensidade de um olhar, medo de corromper a imensidão que me invade...
Palavras...
Murmúrios do coração...

Wednesday, November 28, 2007

Farol


Sinto-me a afogar na angústia dos meus conflitos, em certezas de um incerto pensamento que me atormenta...
Uma bruma de dúvida cerrada roubou-me o meu farol, num mar de sentimentos sinto-me em asfixia, privado do poder pensar, do sentir tudo tão intensamente, do golpe de uma lâmina a rasgar-me a carne, a mente, o espírito...
Sem sangue de vida, sem ar de existência sinto-me adormecer...
Será este um sonho de remorso?
Terei direito a defesa neste julgamento de alma, serei para sempre condenado ao penoso martírio da culpa?
Poderei encontrar de novo essa luz que me guia, esse segredo de um olhar transparente, de um comunicar sem palavras, sem gestos...
Voltará a falar a voz de um coração esmagado pela colisão da circunstância, pela irracionalidade da atitude, pela crueldade do egoísmo?
Poderei apagar os erros da minha história, ou ficarão para sempre como marcas a fogo, consumindo, a pouco e pouco, este meu eu destroçado, perdido, ferido...
Poderei rogar ao tempo o desejo do retrocesso, pedir ao vento que sopre nas páginas do meu livro, no sentido inverso...
Queria correr, voltar atrás, mas estou privado de movimentos, fraco de iniciativa, esgotado por um cansaço causado por um nada fortalecido pela fraqueza que sinto...
Estrela dos meus dias, ajoelho-me a teus pés, suplico-te que não me abandones, que me guies neste meu caminho. Que a cada passo não me fraquejem as pernas, que na esperança de um novo passo possa encontrar forças para um continuar...
Farol de mim, não te extingas, não deixes de brilhar... acredita em mim.
Nessa promeça fincarei o meu acreditar...

Monday, November 19, 2007

Fragrância


Aos sentidos me entrego, a uma viagem de aromas, texturas, paladares, sons e imagens... flashes disparados para a fotografia do ser, para a pintura do ego que se afirma como parte de mim.
Que comece a viagem...
Esvazio a mente, desprendo-me do conteúdo calculado pela intenção do pensar e respiro...
Fecho os olhos e começo a sentir...
Fragrância que me envolve, me hipnotiza, me adormece... Doce aroma de um corpo tranquilo, em repouso, em harmonia, em partilha do instante...
Perfume da sintonia, do eu e tu, odores de uma viagem a destino incerto...
Na música da tua respiração ouço as ondas, ecos distantes dessa voz que me compreende, melodia que me aquece e me sussurra: Estás vivo...
No teu corpo encontro o abrigo, no teu abraço o conforto da existência, o calor que me fortalece, me protege, me compreende...
Nesse beijo, perdido na fugacidade das horas, descubro a razão desta viagem, a inexplicável sensação do querer viver mais uma vez, de adormecer nesse momento para preservar esse sonho, de tornar eterno e sublime essa memória do acontecer...
A esta viagem me entrego, de corpo e alma, à descoberta de um nós como ilha por descobrir, qual terra dos sonhos à espera de ser encontrada por um alguém, por um tu e eu...
Será isto fantasia?
Nã sei... sonho ou realidade... fragrância dos meus sentidos...

Alma


Haverá sempre alma no coração do sonho, haverá sempre brilho no olhar da esperança, haverá sempre beleza na sinceridade de uma atitude...
É nessa certeza que encontro o meu ancoradouro, é nessa presença que aprendo a crescer, que traço o meu rumo...
É com o olhar da alma que te vejo, que te sinto.
É com o acreditar na genuinidade desse pensar que me reflicto, que me construo...
Estranha sensação de querer tocar o horizonte, tão perto, tão longe...
É no fortalecer da confiança que encontro firmeza, no acreditar na simplicidade do momento e na imensidão da sua consequência que esboço um sorriso...
E na fusão desse instante, quando o tempo pára, o mundo se silencia... é ai que me encontro.
Fosse possível imortalizar instantes... para sempre que me inebriasse a tristeza encontrasse alento, recordação de sintonia, de paz, de vida...
Haverá sempre alma, mesmo num corpo vazio, num vácuo de sentimentos, num precipício de sensações...
Haverá sempre alma, mesmo que adormecida pelas contrariedades do querer viver...
Haverá sempre alma... mesmo que perdida no vazio...

Monday, November 5, 2007

Vazio


Entregue a esta condição, pobreza de sonho, riqueza de um nada que me asfixia...
Pesadelo que se desvanece ao adormecer, que me enfrenta ao acordar, que me hipnotiza, conquista, invade...
Anjo de asas cortadas, estrela sem brilho, rosa sem perfume... ser vazio por vontade própria.
Porquê?
Ah... pelas circunstâncias da longevidade da estupidez humana, pela inconsciência premeditada de que de um espelho partido resultam os cacos, mortíferos estilhaços capazes de ferir, cortar, rasgar, sangrar...
Incompreensão de mim, pedaço de ego atingido por uma flecha perdida. Errante no tempo, na hora e no local...
Premonição de um acontecer enevoado de sonho, de um acreditar na diferença do momento, na conquista de um instante de translúcida simplicidade... um sorriso.
Tréguas com a essência, com a pureza do sentir... de mãos dadas com a incredulidade dos actos, das suas consequências...
Vazio de mim... conseguirei criar de novo o meu talismã, forjar a minha energia? Acredito ser possível mas dói, magoa...
Vazio em mim... voltarei a voar? A acreditar na reciprocidade de um permanecer saudável?
Vazio para mim... vitória da futilidade dos dias, da reacção espontânea do ser social.
Vazio é como me sinto...

Monday, June 18, 2007

Marioneta


Pesados olhares, movimentos inertes de consciência...
De olhar fixo no vazio a marioneta contempla, escuta, não fala, grita... Linguagem da dor, da angústia, das horas que passam, tão lentamente...
De compleição curva a marioneta desliza, arrasta-se, reclama, ofende...
Triste condição, boneca em fios suspensa, um entendimento distante, resignada compreensão incompreendida...
Marioneta de triste sorriso na face, outrora tão confiante, tão presente, tão diferente...
Pêndulo suspenso desses fios que a sustentam já tão gastos, emaranhados por nós de uma vida, de um percurso.
Marioneta, agora empurrada por mãos doutrem, por pés artificiais que rodam... auxílio de um metal não precioso que a transporta...
Boneca de trapos vestida, impaciente, desconfiada, descontente.
Mais uma marioneta de colecção... boneco quebrado pelo tempo, porcelana estalada por contrariedades, soldadinho de cor perdida pela intempérie do pensamento. Tantos brinquedos gastos, partidos, por alguns esquecidos...
Todos eles compõem esta colecção, este museu de circunstância.
A marioneta... olho para ela, foge-me uma lágrima...
Apenas mais uma boneca, não esquecida mas sem a graciosidade de outrora, a independência tão querida, os movimentos livres...
Não te faltarão mãos para te manterem de pé querida marioneta, cansadas, tristes, inconformadas mas não te largarão...
És peça desse museu antigo mas ficarás por perto, recordação do passado, marioneta enrugada...
Que estes bonecos brilhem sempre, que a quem proporcionaram tantos bons momentos lembrem que precisam agora que os iluminem, que os protejam, os confortem...
Marionetas, bonecas de trapos, soldadinhos de chumbo, bonecas de porcelana, cavalinhos de pau... Em tempos alegria de criança agora crianças de rugas...

Thursday, May 17, 2007

Murmúrios



Pedra fria em que assentam os meus dias, infindáveis caminhos pelos quais deslizam as rodas do meu impulso...
Linha-férrea de paciência, vagão carregado de um vazio que me consome, ocupado pelo todo que me preenche, pela imensidão de um sentir... Círio que me cega, luz que me acompanha, percurso de vida, escuridão que me encontra...
Crucifixo de mim, fogo gelado de um temperamento convicto, embora instável, desta certeza fortalecida pela consistência do mármore, a preciosidade de uma esmeralda, a falsidade de um para sempre...
Procura de ordem, impulso que me esmaga, certeza de nada saber...
Mergulho no vazio, queda no esquecimento contemplado por olhos cor de nada, envolto pelo eco de um grito ao vento...
Voz de uma palavra, canção de um desespero, murmúrio de uma vaga épica, de um presságio que não acontece...
Frialdade que me gela os ossos, que enfraquece os pilares que sustentam o meu acreditar, abraço de um corpo inerte no tempo, qual sonho esquecido pelo acordar...
Adeus de um erro inequívoco, de um falhar convicto de certeza, de uma culpa sentida de um acreditar fiel. Embriaguez de um veneno desconhecido, sem antídoto, sem o especular de uma esperança...
Manhã aquecida pelo nevoeiro colorido por cor incerta, desenhada por mãos trémulas, tão débeis, tão precisas...
Farol numa noite sem luar, de uma chuva que não molha, de um frio que já não se sente...
Murmúrios perdidos, sussurros desta voz que fala por mim...

Monday, May 7, 2007

Paleta de cores

Com uma paleta na mão preparo-me para pintar... para dar cor a uma tela em branco.
Não sei por onde começar, que cores usar, que formas criar. Fecho os olhos e penso...
Surgem formas indistintas, manchas de cor que se expressam por si próprias. Deixo-me guiar pelos movimentos da minha mão, expressão de alma, confessora de pensamentos, espelho do sentir...
Com azuis, profundos oceanos de recordações, de momentos partilhados na sintonia da simplicidade, da partilha, da amizade...
De negro marcos de tempo, precipícios contornados pela obrigatoriedade de um continuar, pela necessidade de um reencontrar o rumo, o fio condutor...
Com a intensidade de um vermelho, qual rosa que inebria com a sua beleza mas que fere com o seu espinho, dá cor à vontade de viver, de sorrir ao mundo e agradecer pela existência.
Verdes surgem na tela, como paisagens de tempo, histórias gravadas na memória com o peso de um rochedo e a subtileza de uma pena. Histórias em que sou personagem principal, os meus contos, as minhas aventuras, as minhas viagens...
Com amarelos aquece esta pintura, luz que me conduz, que me guia, que me ampara.
Laranja, castanho, cinzento, preto, branco... cores do meu quadro, segredos desta obra de arte que tanto tem de beleza como de valor para mim...
Quadro dos meus dias, em movimento, em mudança... Pintura inconstante, em transformação, sempre...
Tela de branco outrora pintada mostra agora o arco-íris do meu existir...