Monday, August 24, 2009

Quem Serão?


São garras traiçoeiras, são divinas encapuçadas que vagueiam como sombras invisíveis, presságios velados de perseguição, de fuga, de medo...
Quem serão? Damas da bruma, espectros sem rosto que não se deixam vislumbrar, fugazes devaneios sem corpo, sem conteúdo, sem nome...
Serão senhoras do breu, presenças descrentes de uma fé não conhecida, corações enegrecidos por uma peste inerte ao tempo, à devoção, à súplica...
Serão princesas de contos inacabados, sem um final feliz, sem um final sequer... Realeza apodrecida por sólidas convicções do não compreender, do permanecer inconsciente ao espaço que me abraça, me aconchega e me consome.
Quem serão? Órfãs esquecidas por um mundo imperfeito, filhas das horas, incessantemente negadas e renegadas por vozes roucas, gritos rasgados, sonhos estilhaçados...
Quem serão?
Nesta dúvida permaneco, entrego-me a um sono de pensamento.
Durmo...
Sonho...
E nesse inconsciente quase esquecido revejo esses olhares frios que me fixam e se me revelam... Sou obrigado a fitá-las, a reconhecê-las, a sentir o vermelho gelo que me corre nas veias, sem compreender se ainda vivo ou ja há muito me tornei um reflexo de mim...
Acordo...
De nada me lembro...

Friday, April 17, 2009

Escadaria


Não sei onde me encontro, não sei para onde vou... estranhamente prossigo, passo a passo, subo uma escadaria de negro forrada, de nébula adornada, em silêncio esculpida, de movimento sugada...
Subo... movo-me sem intenção, não sou eu, é apenas o meu corpo que caminha, que procura uma luz, um destino, um lugar. Neste passeio sem rumo a minha mente mergulha na imensidão do sonho, qual ego invisível, qual silhueta de um corpo esquecido para trás, nessa ingreme subida de procura, sem nada encontrar, de olhos fechados a uma tristeza que teima em oferecer-se como corrimão, guia de viagem, apoio ao cansaço que começa a apoderar-se do meu corpo...
Paro... descanso... percorro com o olhar este espaço que me abraça e nada encontro, estou perdido, não sei onde estou...
Grito.... ouço uma resposta? Ingenuidade esta que surge por não lembrar um eco que não me perdoa, que me relembra, mais uma vez, que não há nínguem...
Sento-me num degrau humedecido por lágrimas de tempo passado, pisado pelo peso das escolhas, gasto pela fugacidade das opções... Nele descanso, tento recuperar a consciência, sintonizar corpo e mente... Nesta viagem caminho sozinho, obrigatoriedade de uma condição demoradamente entrançada pelas minhas próprias mãos, artesão do destino, obra prima do infortúnio...
Levanto-me, olho em frente e prossigo...
Nessa escadaria chegarei a algum lugar, se tropeçar, de novo e voltar atrás mais uns degraus hei-de encontrar forças para de novo me erguer. Não vou desistir, recuso a derrota, renego a perda, desminto essa sensação da pouca sorte.
Continuo... espero conseguir convencer-me que essas palavras estavam erradas...

Friday, September 19, 2008

Quietude


Na quietude da noite permito o divagar ao pensamento, amavelmente concedo liberdade à ideia, à suposição, ao sonho, ao receio, à reflexão...
Com essas linhas de cor mutante bordam-se intrincadas tramas da possibilidade, tecem-se artes como que relatos invisuais de um aconchego, de conforto. Em pano cru, por pérola manchado, eis que surgem pontos do refrear da incerteza, do desalento e do desânimo...
Nessa quietude, instantânea paz concedida às horas o meu corpo abranda, a minha mente expande-se. Consigo respirar o alívio do tempo, desfazer-me do peso descrente da dúvida, desprendo-me do desacreditar, venço as grilhetas desse negativismo imperfeito.
Encharcado pelo breu do sossego consigo acreditar nesse tantas vezes egoísta triunfo, nesse véu de bruma ondulante, imortalizado por destino, Graal de cada essência, de cada um... Tão solitário, tão individualista, tão insuportável contentamento...
No sono do tempo, irremediavelmente entorpecido pelo desgaste do ter e querer viver, percebo que perdas e reencontros são cruciais apontamentos da existência, fomento da vontade do alcançar.
Neste silêncio em mim sei que o amanhã chegará, por sol ornamentado ou de chuva decorado certamente será meu, e esperará o meu acordar, o meu adeus ao sonho, a minha despedida à noite...
Na quietude da noite, no limiar da consciência do adormecer, ofereço um agradecimento sem palavras, sem destinatário, sem rumo...

Wednesday, September 17, 2008

Serei Ser?


Conturbado vazio, seco impacto desse soco diferido por mãos de ninguém esmaga ser, pensar, sentir, acreditar...
Incomprensão do agir ou simplesmente não compreender a atitude?
Reflexo da palavra ou espelho da intensão?
Esmagado mensageiro esse a quem são ouvidos discursos da confusão, esse que agoniza pelo veneno da palavra, esse que dá asas a ideais ou ideais, convicções ou crenças, verdades imaginadas ou mentiras esquecidas...
Conseguirei sobreviver neste ataque desprovido de armas mas secretamente armadilhado pela surpresa? Serei herói do inesperado ou subtilmente entregue ao tombo da perda?
Traiçoeiro caminho, esse a que me entreguei confiante, demanda de um reencontrar, história de um compreender, essência de um corpo que me transporta, albergue de uma figura que parece não se encontrar, não se reconhecer...
Serei estampa do acto, continuamente lembrado do que tento esquecer, incesantemente recordado pelo aconteceu?
Por amargas ruelas do ponderar caminho, em becos perdidos carrego pela transparência um esgar forçado, um coexistir determinado pela obrigatoriedade do dever. Não sou bom actor, não consigo usar essa máscara, esse enganoso estar...
Pretendo encontrar o equilíbrio, anseio pelo desfecho possível de um entendimento compreendido pelo abraço da razão...
Assim continuo confuso, perdido, dolorido,esquecido...
Serei ser na minha história?
História sem nome, fragmento do acontecer, instante em que me perco e me reencontro para, impensavelmente, me voltar a perder...
Serei ser?

Friday, September 12, 2008

Silhueta de Si


Por negro vestida, abandona o seu refúgio... Segue perdida, sozinha, esquecida, caminha...
Sombria silhueta de si segue por trilhos esbatidos, percorre irremediavelmente resignada traços de um tempo não apagado, revisita túmulos jamais esquecidos que parecem implorar um olhar, uma atenção... Sopros de um acontecer que não se dissipa, névoas de rebeldia controversa, coro de um choro que não cessa, que não canta, lamenta...
Amarga sombra de tempo, desliza lentamente como que guiada por um sentimento sem nome, como encantada por um chamamento inaudível da hora, do lugar, do momento...
Nesse eterno repouso de alma procura a pedra fria que a atrai, que a arrancou do seu abrigo, do seu domínio, do seu instável acreditar.
Vagueia abstraída, procura sem saber o que encontrar...
Eis que encontra o que procurava sem perceber, o que a encantava sem querer entender...
Na cruz de uma lágrima sente-se desfalecer, a essa laje oferece o seu sangue, vermelho intenso do passado, derrota de uma impossibilidade do esquecer...
Nesse túmulo jamais desaparecido descansa o seu suplício, o seu tormento, o seu pesar...
Nessas palavras se funde, senhora da sombra, senhora sem nome a quem chamaram Memória...
Nesse jardim do para sempre reencontra a sua metade, sono eterno de si, sem vida, sem conteúdo mas eternamente presente...
Senhora esquecida, de negro vestida entrega-se à companhia dessa outra adormecida a quem um dia chamaram... Lembrança.

Wednesday, August 27, 2008

Sete Pecados...








... da minha Existência

Serei avareza do ser por atitudes geradas pela consonância de um pensar com o sentir? Por não gritar aos gestos, palavras e pensamentos que não sejam ambíguos aos olhares de outrem, que sejam espelho explícito de uma névoa que me aconchega?

Serei gula dos sentidos por tentar absorver desse aroma do querer o sabor do conseguir? Poderei alguma vez deliciar-me pelo paladar da certeza, da convicção, da compreensão?

Serei luxúria da crítica por ambicionar diferir, por adorar a audácia do aparecer, por mostrar um eu que sou mas tantas vezes escondo, um eu que sou e tantas vezes não reconheço? Serei eternamente lâmina escorregadia de um vermelho sombrio, quente sangue da atitude?

Serei inveja incalculável por um preciso cálculo do esperado, quente gelo que aquece corpo mas gela alma? Serei imperfeito dador do contraditório, rara inconsciência do confiar?

Serei vaidade infundada de temperamento, esmagadora divergência de humor, inexplicável poção do ser ou não ser? Conseguirei encarcerar vítimas do dizer e demónios do deixar de dizer? Por assombrações do sonho serei para sempre errante tormento do não ser compreendido?

Serei preguiça que me amarra em alegres ódios ocasionais? Serei indigna capela do recolhimento do pecado, serei espírito de aparente paz, solene adeus a um sol que por vezes não brilha?

Serei ira de mim, antítese de uma fortaleza construída por pedra suportada por pena? Conseguirei simplesmente ser apenas alguém imperfeito, alguém que chora e que ri, que cai e se levanta, alguém que erra e aprende, algúem como qualquer um?

Não sei ser de outra forma a não ser como sou...




Wednesday, June 11, 2008

Fragmentos


Por fragmentos de instantes, pedaços de momentos sentidos vou construindo uma teia de lembrança, sopro da saudade, fugacidade desse vento que passa, que leva para longe a intensidade da presença, que arrasta sem permissão a possibilidade, a vivência, reflexo de um sorriso de alma qual espelho de medo, agonia do parecer irreal...
Em águas turvas de pensamento partilho visões do estar sem tempo, do permanecer rodeado por outros seres, outras histórias, outras vidas. Olhares que contemplam, visões carregadas de diferentes significados, de distintas interpretações. Sinto-me desprender das amarras do constrangimento, vou-me libertando do peso do receio, do martírio do tanto pensar quando se torna tão mais fácil simplesmente não pensar, não ponderar apenas sentir...
É nesse significado que me revejo, que retorno depois desse voo distante, dessa ausência de vozes inconscientes, gritos de um ódio infundamentado, choros de espírito esvaziado de conteúdo...
Em fragmentos de momentos fortaleço sensações, descubro forças antes desconhecidas, encontro um porto de abrigo, um refúgio a esse tempo que foge, que não para, que não descansa.
Fortaleza abraçada pela luz de um sol que se despede, esculpida numa madeira esquecida pela chuva, abandonada pela noite, encontrada por mim.
Fragmentos de um eu constante de mudança, agraciado pela possibilidade de ser sentido, enriquecido pelo valor da compreensão, achado inesperado numa noite obsoleta, num sono sem sonhos, sem esperança.
Desenhado por fragmentos de uma saudade constante permaneço inerte nesse acontecer, imóvel ser abraçado pelo saber que nesse refúgio sou completo, sou estrela num céu imenso de pontos de luz, sou um ser não fragmentado mas construído por esses fragmentos dos nossos instantes...
Fragmentos de sorrisos, fragmentos de lágrimas, fragmentos de um ser feliz...

Monday, June 2, 2008

Baile de Lua


"Queria ser digno de suplicar à lua, de implorar às estrelas, à brisa que passeia nesta noite de escuro vestida, dama de um baile ausente, bruma de um sonho aquecido pelo vibrar de um sentimento... Queria ser bruma, ser essência, ser espelho de um ser indescrito por palavras... Queria ser mistério, queria ser vontade, queria ser sopro nesse baile da lua e das estrelas para conseguir, levemente, passar pelo teu rosto e depositar nele um beijo de mim..."